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Folha: Brasil precisa fortalecer sistema de alerta para emergências sanitárias
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Folha: Brasil precisa fortalecer sistema de alerta para emergências sanitárias

10.04.2022

Jorge Kalil


 


Zika, dengue, chikungunya, febre amarela, H1N1, H3N2 e SARS-CoV-2. O Brasil enfrenta há décadas a ocorrência de sucessivas emergências sanitárias em intervalos cada vez menores. O surgimento e a disseminação do novo coronavírus, que levou o mundo à mais grave crise de saúde pública em um século, fez o país reorganizar sua rede de vigilância epidemiológica, ainda insuficiente frente aos desafios atuais e aos que se avizinham.


Para identificar e acompanhar emergências sanitárias causadas por vírus ou bactérias, o sequenciamento genômico dos agentes é crucial. Por meio dessa técnica, é possível identificar qual vírus ou bactéria está causando, por exemplo, a alta de internações em determinada localidade. Também revela se certo agente infeccioso voltou a circular ou se estamos diante de algo novo.


Em 2015, na epidemia do vírus zika, foram necessários 18 meses para descobrirmos que se tratava de uma nova doença, não de dengue. Como os sintomas de zika e dengue são semelhantes, não foi soado o sinal de alerta. Com o sequenciamento genômico, o Brasil teria avançado mais rapidamente nessa batalha.


A fragilidade do sistema brasileiro também foi notada no início de 2021. O Japão identificou e sequenciou a variante gama do Sars-CoV-2 ao mesmo tempo que o Brasil, onde a cepa já circulava havia semanas. Na ocasião, Manaus enfrentou o colapso de seus sistemas de saúde e funerário. Uma rede eficiente teria alertado os governos para a gravidade da variante, possibilitando a adoção de medidas adequadas.


Para ajudar o Brasil a monitorar o avanço da ômicron, identificada em novembro na África do Sul, o Instituto Todos pela Saúde (ITpS) vem realizando levantamentos semanais em parceria com os laboratórios privados DB Molecular, Dasa e CDL. Por meio do teste RT-PCR Especial, mostramos como a ômicron se alastrou, atingindo 98,7% das amostras positivas para o Sars-CoV-2 na primeira semana deste ano e caindo para 4,5% na semana entre os dias 13 e 19 de março.


Com os dados compartilhados pelos laboratórios, o ITpS também acompanhou a chegada da sublinhagem BA.2 da ômicron, que entrou no Brasil após a BA.1 ter se disseminado e se tornado predominante. Segundo o mais recente levantamento, concluído no fim de março, a proporção de casos prováveis de ômicron BA.2 cresceu de 3,8% para 27,2% em três semanas (27 de fevereiro a 19 de março). O teste RT-PCR Especial não substitui o sequenciamento, necessário para a identificação precisa da variante, mas auxiliou o país a ter um cenário atualizado.


Para monitorar a pandemia, é necessário sequenciar ao menos 0,5% das amostras positivas para o Sars-CoV-2. No Brasil, a taxa é de 0,42%, segundo a plataforma internacional Gisaid. O percentual é baixo mesmo quando comparado a países vizinhos (Chile, 0,65%) ou outros com situação econômica similar (México, 1%). Se o parâmetro for as nações mais ricas, o degrau é ainda maior. O índice é de 11,9% no Reino Unido.

Para além da baixa taxa de sequenciamento genômico no país, pesam as desigualdades entre estados. Levantamento do ITpS na Gisaid, em que laboratórios de todo o mundo depositam dados de Sars-CoV-2, revela que em São Paulo foram sequenciadas nos primeiros 18 meses da pandemia (março de 2020 a agosto de 2021) 0,72% das amostras positivas. Rio de Janeiro e Amazonas aparecem em seguida, com taxas de 0,63% e 0,62%, respectivamente. Esses são os únicos estados com índices acima do desejado 0,5%. A estrutura amazonense não dá conta do sequenciamento e, por isso, vale-se do auxílio de laboratórios de outras regiões. Mesma situação enfrenta a maioria dos estados.


Grande parte do Brasil vive um apagão de dados devido à baixa capacidade de sequenciamento. Dezoito estados e o Distrito Federal tiveram menos de 0,2% das amostras sequenciadas no período analisado.
Sem laboratórios com infraestrutura técnica, profissionais capacitados e insumos, o Brasil não tem condições de monitorar a circulação de agentes infecciosos em tempo real, medida essencial para que os governos definam políticas públicas e mitiguem riscos para a população.


O Brasil precisa com urgência fortalecer seu sistema de alerta e integrar a rede de vigilância epidemiológica. Além da pandemia de Covid-19 em curso, o país vê crescer os casos de dengue. Recente boletim do Ministério da Saúde revela alta de 43,2% em 2022, até a semana epidemiológica 7, em relação ao mesmo período de 2021. A queda geral das taxas de vacinação, incluindo o imunizante contra poliomielite, também acende o alerta. As próximas emergências sanitárias virão, não há dúvida. Precisamos estar preparados.


* É médico imunologista, professor da Faculdade de Medicina da USP e diretor-presidente do Instituto Todos pela Saúde (ITpS)


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